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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Receita para ser feliz



Receita para ser feliz



Para ser feliz não acredite nos jornais, revistas ou noticiários. Só trazem maldades, má notícia, desespero. Ligue-se à vida, escreva um livro, um diário. Conte sobre você, corra pelas praças, solte uma pipa.Beba um café, ouça Toquinho e seja feliz. Política e sacanagem não podem estragar o seu dia. Diga eu te amo, sorria sem motivo aparente. Deixe de pentear os cabelos pelo menos por hoje. Não vá trabalhar e se for, dê bom dia aos colegas, Suba no último andar e jogue papel picado sobre a Praça.Grite como se fosse seu último desejo, desça escadas pulando os degraus. Diga ao seu filho que ele é o máximo, diga à sua esposa que a admira e a leve ao cinema para namorar no escurinho. Converse com Deus, diga-Lhe o quanto sua vida é boa e agradeça. Viva intensamente, jogue damas com os velhinhos e converse com o ambulante da esquina. Não leia bula de remédio e ande de ônibus ou a pé . Pule corda com a meninada da rua e role pelo chão. Coma com as mãos e sinta o prazer de ser criança. Seja feliz pelo menos por um dia. Saia de casa olhe pra vida e veja as árvores. Aprecie o vagar dos homens tristes da cidade e tire disso uma lição de vida . Cheire a chuva, beba o vento e ouça as flores. Delicie os fulgores e os sabores da Praça da Estação. Corra sem direção ao vento, ao relento ao encontro do amor.Pule, em paz, quem faz seu destino é você . Ande, coma pipoca, vá ao parque municipal. Se você pouco tem, alguns nada têm. Perambule pelo centro da cidade e veja como sua vida é boa. Atravesse as avenidas como se estivesse voando, assoviando. Suba a Serra do Curral e lá de cima, veja tudo que também é seu: a cidade, o ar puro, as árvores, os parques, os amigos, a família, o pôr do sol. Carpe diem seja aqui ou onde for. Modifique sua vida, ser feliz é escolha pessoal. Escreva uma carta de amor, telefone para sua família, vá à casa do amigo dos tempos de criança. Corra atrás dos gatos, brinque de roda e cante cantigas de ninar. Conte uma piada, ria da sua mancada e aprecie o voar randômico dos pombos sem compromisso. No campo, na cidade, no trabalho, no amor. Faça algo diferente, seja humano, seja original, seja feliz.







*Registrado e publicado em Recanto das Letras

domingo, 16 de dezembro de 2007

Úmida


Úmida



Estou oculta em minha própria origem...

meu abdome esconde uma fonte,

um abismo inigualável, profundo,

dentro de mim, te sinto

e te percebo...

- como arde este fogo que me consome –


Faço-me cálice para seu licor,

E garganta para seu absinto

vem, invade todo este desejo

e acalma essa fogueira que me arde

num surto maior que de um louco

e por pouco vem,

renda-se numa obsessão incontrolável

variável

arranhe, machuque, penetre, amasse,

toque-me, leve-me para aquele outro lugar.




Invada minhas entranhas,

arranha-me e me deite de bruços...

num surto maior que se faz

e sinta-se louco como tal

Faz de minha vida mesquinha tua parte.

E se seus dedos me procuram,

meus lábios os aquecem e meus livores se aproximam

quero senti-lo,

cada parte, incessantemente,

dentro de mim, fora de mim,

em mim

minhas partes estremecem quando sinto o calor da sua arte,

pinte meus pés, desenhe meus seios com suas mãos.




Morda-me

Arranque-me suspiros

Faça-me perder em mim

Faça-me úmida, ofegante, em gritos, em sussuros, faça-me mulher!!!





Registrado e publicado em Recanto das Letras

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Virtual

Se eu fosse virtual

“Chegou o tempo em que ou você é alguém@onde.oque ou você não é ninguém”

Se pudesse ser uma coisa, uma outra coisa, eu queria ser um software, digital, virtual. Não seria muito exigente. Bastava ser virtual. Se eu assim fosse, eu dominaria as dimensões do tempo e do espaço e viajaria pelo planeta digital e me deliciaria congestionando o tráfego na Trafalgar Square. Literalmente passearia pelos sites literários e num dia de sol enviaria um e-mail a Castro Alves e num navio negreiro, navegaríamos por mares nunca dantes navegados em companhia de Camões e Robinson Crusoe. Também por e-mail, convidaria Helena e Capitu para ir à Espanha assistir a uma tourada e mais tarde, em casa de Almodóvar, descansaríamos numa cama para três.

Nas terras da Rainha, pesquisaria na Enciclopédia e com pontualidade Britânica iria ao chá das cinco com Shakespeare e Sherlock. Convidaria Rimbaud para um bate papo na Gallerie La Fayette e numa sexta à tarde me conectaria com Belo Horizonte, aonde iria ao clube da esquina, tomar um café com bytes em companhia de Milton e Borges.



Ah, se eu fosse virtual! Se eu fosse virtual, teria memória sem limites e poderia guardar tudo do passado e do presente. Então, me presentearia com um álbum dos Mutantes. Seria amigo de Vinícius, de Chico e de Janis Joplin. Com Lennon e McCartney, Pena Branca e Xavantinho, formaria uma banda larga inusitada e tocaríamos juntos em MP3.. Seria virtual, mas com sentimentos e, com Noel e Adoniram, choraria melosas canções de amor numa rádio digital. Mesclaria Pixinguinha e Marisa Monte em uníssono, cantando Rosa, em poesia não em prosa, para fazer alguém feliz. Se eu fosse virtual, Bach me ensinaria que na música, a nota codifica o som, e eu o explicaria que na informática, o bit codifica a ação.


Se eu fosse virtual e cometesse crimes, Dostoievski seria meu advogado e meus castigos minimizados. Poderia até ser processado, mas por processadores, que me mandariam pra Alcatraz. Lá eu escreveria minhas memórias do cárcere e um postal eletrônico para Marco Polo. Planejaria uma fuga lá para o reino de Khan, a quem eu contaria de minhas andanças pelas terras do sem fim. Depois, criaria um portal de games para jogar Dama com as Camélias e enviaria flores virtuais para Madame Bovary. Digitalizaria o amor, para que minha musa não guardasse de mim apenas impressões digitais e fundaria com Gullar a Academia Brasileira de Bytes. Não seria um Highlander, mas seria imortal.


Se eu fosse virtual, simularia o meu Taj Mahal, onde leria As mil e uma noites em uma só, deitado confortavelmente em minha rede. Iria ao Louvre e admiraria cada píxel da Mona Lisa. Materializaria-me junto ao túmulo de Salvador e o tiraria dali para meu alívio e para a persistência de sua memória. Gravaria em placas homenagens a Sebastião Salgado, Picasso e Caetano constatando que a Guernica é aqui. Aprenderia com Freud sobre Édipo e o Ego num site de psicologia e entenderia que quando os sonhos assumem forma concreta, surge a beleza. Seria menino e correria Brasil afora em busca de pica-paus amarelos ou de uirapurus cantantes. Pularia carniça nas pinceladas de Portinari em companhia de Bardi e me deixaria deslizar nas curvas generosas de Niemeyer. Imprimiria elogios de louvor á brasilidade de Macunaíma e Mário de Andrade me convidaria para um banquete antropofágico em casa de Tarsila, numa mensagem com a Muiraquitã em anexo,.


Se eu fosse virtual, conversaria com Da Vinci em código e compilaria com Einstein o quântico dos contos . Instalaria-me com Clarice em uma rede e a ouviria explicar sobre como (d)escrever o amor. Entenderia grego, português, inglês e outras línguas porque armazenaria todas as línguas na memória. Entraria nos arquivos do FBI, do DOPS, do SNI e da CIA, de onde hackearia informações sigilosas e as compartilharia com Henfil e Betinho. Criaria uma comunidade alternativa no Orkut e Raul Seixas seria o síndico. Em uma página de poesia, jogaria conversa fora com Drummond, depois andaríamos por uma rua qualquer de Itabira, e no meio do caminho, nos assentaríamos em um banco de dados também qualquer para escrever às crianças.


Se eu fosse virtual, programaria com Júlio Verne, dez voltas ao redor da Terra, à velocidade de um download, num Led Zeppelin amarelo. Buscaria no Google, um trabalho para Marx e trocaríamos informações sobre workgroups. Após o almoço, Newton me ofereceria uma maçã e eu o convidaria a ensinar física aos engenheiros da Apple por videoconferência. Se eu fosse virtual, ao envelhecer, não me preocuparia com a forma física e nem sofreria cirurgias plásticas ou lipoaspiração. No máximo, Ivo Pitangui me atenderia em uma clínica de upgrades e eu sendo velho, não morreria. Bastaria um update, um download, e eu me renovaria como a Fênix.Tudo isso seria possível se Deus, o criador, fosse programador e, se no ato de me criar, tivesse feito um software, não um escritor. Ah, se eu fosse virtual.



Registrado e publicado também em Anjos de Prata

domingo, 2 de dezembro de 2007

AMOR

EU QUERO ENCONTRAR UM AMOR OU A PRIMEIRA VEZ


“Somos feito da mesma matéria que os sonhos”
William Shakespeare


Quero ler um livro, apenas mais um. Aquele que me indique o caminho para encontrar um grande amor. Não precisa ser desses amores de novela, nem daqueles para a vida toda, mas precisa ser amor. Através de várias viagens, sou um cidadão do mundo mas desconheço o amor. Tenho dividido os últimos anos de minha vida entre os discos de bolero, meus livros e um grande sonho. Nunca encontrei um grande amor. Sempre fui rodeado por sentimentos passageiros, nunca amor. Quero mesmo é viver nos poemas de Vinícius, porque acredito que lá o amor é um sentimento concreto, embora isso possa parecer paradoxal. Quero amar.

Queria um amor denso, que durasse míseros 5 minutos, mas que enquanto durasse fosse realmente amor. Alguém para se importar, brigar, concordar e discordar, elogiar e criticar. Quero um amor simples como um algodão doce, porque viver já é muito complicado. Que meu amor não se importe se eu usar aquela camiseta amarelinha a semana toda. Que meu amor goste de planta, arte, bicho, de cinema e de conversar sobre tudo, mas que, sobretudo, me perceba quando eu falar sobre nada. Que esse amor me dê carinho e respeito e que faça sexo num ato de amor. Que meu amor seja amigo e que fale de política e me explique quem é Deus, mesmo se não O conhecer. Quero um amor capaz de tornar semântica a palavra família. Para ser meu amor não precisa ter dinheiro, nem fama ou corpo de modelo. A idade não importa, basta me dar amor. Que me faça sentir o coração como se sente um calo ou um espinho na carne. Que me faça também ter certeza de que está ali, não precisa me entender, mas que eu saiba que me ouve, pois sei que sou mesmo complicado. Que meu amor me ligue num domingo de manhã sem razão. Que nesse telefonema não se importe se eu não disser nada, mas que me sinta. Quero um amor sem vergonha, sem timidez. Não precisa ter soluções desde que me ajude a sobreviver aos problemas. Quero um amor pra andar de mãos dadas pela rua, pela Bahia, que me faça descer pra floresta com desejo. Que meu amor seja suave e selvagem, paradoxal, mas nunca prolixo. Que não me sufoque nem me entristeça, mas que me faça sentir homem, antes do fim do meu ciclo. Quero um amor romântico, shakespereano, um amor Ágape, Eros. Quero um amor Amor.

Quero um amor, mas que meu amor não seja efêmero, afinal, não se pode amar com pressa quando se ama pela primeira vez.




*Publicado em Anjos de Prata


Conto publicado e registrado. Reprodução permitida desde que citada a fonte.