segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A carne

            -A carne acabou!
-Mas eu quero! – Carlinhos suplicava à mãe durante o almoço.
-Menino, em casa de pobre tem carne todo dia não. Carne é coisa cara, custa dinheiro.
-Mãe, a carne é feita de quê?
-Carne vem de bicho.Vem de boi, galinha, porco, esses bichos todos. Todos os bichos são feitos de carne.
-Até o Veloso, mãe? – pergunta o menino curioso sobre o cachorro da casa.
- Até o Veloso, Carlinhos. Até a gente é feita de carne.
O menino fica pensando por alguns instantes e segue, triste, comendo seu arroz com tomate.
***
Carlinhos vai pra escola ainda pensando na carne que não comeu. Talvez coma carne na merenda da escola.
Vem a merenda e, nada!
-fessora? Tem carne hoje não?
-Não, Carlinhos. A merenda hoje é rica em vitaminas pra você ficar forte.
-Faz vitamina de carne, tia?
-Não, Carlinhos. A vitamina que estou falando é de outro tipo. Na cenourinha tem, no feijão tem, até na carne tem.
-Tia, quero merendar mais não.
***
Carlinhos volta da escola e sonha com um pedacinho de carne, prato cheio de carne, comer muita carne.
-Carlinhos, vair tomar banho que o almoço tá quase pronto!
Oba! talvez tenha carne, pensa o menino pelado dentro do banheiro.

***
-Manhê, cadê a carne? Só tem angu e chuchu no meu prato?
-Menino, é o que tem pra comer. Carne só no fim do mês. E para com essa perguntação que não aguento mais.
-Mãe, o Lucas falou que na casa dele tem carne todo dia. No meu aniverário vai ter muita churrasco?
-Ai, menino. Que coisa. O pai do Lucas tem um açougue. Carne é bom mas é cara. Se pelo menos o filho da mãe do seu pai me ajudasse. Vou fritar um ovo e você come.
-Mãe, galinha é feita de carne. O ovo vem da galinha. Ovo é feito de carne, mãe?
(...)
***
Chega o fim do mês e após pagar todas as contas a mãe  vê que o dinheiro novamente não ai dar pra comprar carne. Fica pensativa, triste. Ela sabe que Carlinhos vai ficar chateado.
***
No domingo, a mãe serve macarrão. Carlinhos pergunta, esperançoso nos seus seis anos de idade:
-Mãe, cadê a carne? Não quero comer macarrão mais não. Cê falou que ia comprar carne, né mãe?
-Carlinhos, deixa a mamãe te contar uma coisinha. O dinheiro da mamãe acabou e não deu pra comprar carne. Mal deu pra comprar o macarrão. Até o Veloso tá sem comida.
-Mãe, o Veloso é bicho?
-Sim, Carlinhos. Já te falei que cachorro é bicho.
-O Veloso é bicho igual vaca, porco e galinha?
-Sim, é tudo bicho e são feitos de carne, Carlinhos.
-O Veloso é bonzinho né, mãe?
-É, Carlinhos, o Veloso é bicho igual vaca, porco e é bonzinho, mas dá pra você comer sem conversar?
- Eu gosto do Veloso e de carne, mãe. Não gosto de macarrão.
-Carlinhos, come esse macarrão logo que quero ver televisão em paz.
-Mãe, posso te perguntar só mais uma coisa?
-Carlinhos, é a última pergunta. Depois dessa você vai pra cama.
 -Mãe, amanhã na hora da comida, a gente pode comer um pedacinho do Veloso?

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Futricas

É nóis!

Sou um texto dissolvido em palavras e por palavras externas de leitores que vêm aqui e rabiscam meu corpo . Sou uma página cheia de sentenças vazias e verbos de ação que não se traduzem em movimentos. Sou a página 68 arrancanda do livro( como se os livros não tivessem sentimentos)por um leitor imaturo demais para entender as minhas linhas.Estou solto ao vento, borrado pelos pingos das chuvas de dois anos atrás, amassado pelas mãos que por aqui passaram. Sou um texto invadido por frases fora do lugar que não têm sentido e que nem têm a menor intenção de serem verdadeiras.Preciso de acentos, cores, coesão , coerência e cuidado para me fazer vivo de novo.

Danielle Miranda


Flávio Nickel Noisy

Belo Horizonte, MG, Brazil
Então. Acabei por me saber fragmental. Mineiro de João Monlevade, sou licenciado em Letras/Inglês pela UFMG e atualmente sou professor de Inglês da rede municipal de Contagem e professor-coordenador do projeto de ensino de línguas do CACS FAFICH/UFMG. Recém terminei a revisão da biografia de Raul Cuero (www.raulcuerobiotech.com), um cientista de grande prestígio internacional e atualmente estou traduzindo essa mesma biografia e terminando meu livro de contos. Escrevo sobre o que há, sobre o virassê, sobre mim, sobre todos, sobre tudo. Tento capturar essa fumaça que paira sobre nós e que nos envolve e nos fascina. Tento capturar as palavras, estas que estao por aí, nos esperando para dar-lhes forma e chamá-las de literatura. Nascido a 12 de Abril de 1978, escrevo desde sempre e continuo.